Crônica

Comi carne na sexta-feira santa

Na sexta-feira santa, na fé cristã, quando relembramos a morte de Jesus na cruz, não podemos comer carne. Pode parecer que nem seja grande coisa, mas eu frequentei escola católica e comer carne na sexta-feira santa era feio. Porém, bem, eu comi.

As freiras, os padres e até mesmo alguns professores faltavam gritar “não comam carne!”. Diziam, com aquele tom de o-fim-do-mundo-está-próximo, que ao comer carne na sexta-feira santa eu (vejam os absurdos): estaria comendo a carne de Jesus e o machucando dessa forma (eu tinha 5 anos de idade ao ouvir isso pela primeira vez), estaria mais propensa para pecado (7 anos),  os portões do paraíso se fechariam e os do inferno me puxariam (9 anos) ) e muito provavelmente não teria sucesso nem paz (11 anos). “Comam peixe”, eles diziam antes de nos liberar para o feriado.

Bem, e assim foi, por muito tempo, eu comi peixe. E quando decidi que não gostava mais de peixe, passei a não comer (arroz, salada – o meu prato era muito fit em sexta-feiras santas).

Eu lembro que um dia fomos em um almoço, quando eu já era quase adolescente, onde crianças ganharam carne para comer, pois eram crianças, então elas podiam, e outra, imagina se elas engolissem um espinho do peixe?! Melhor não, né? E lá estava eu chateada com o meu arroz e a minha salada. Queria ser criança, não saber separar espinho de peixe e ganhar um pedaço daquela picanha. Queria ser correta, seguir as crenças que a escola passava com tanta firmeza e os valores que, a recém começada catequese, passavam.

Isso tudo levando em conta que eu não sou a louca da carne, tá? Sim, gosto de comer, mas não é uma coisa que eu não viva sem. Então, nunca foi uma questão de não poder comer carne, especificamente. Foi sempre algo com a proibição, com a tal da penitência. Eu já faço minhas orações, sou uma boa menina o ano inteiro, respeito demais e sou grata pelo o que Jesus fez e ainda faz por mim, mas deixa eu comer o que eu quiser.

Porém, era só um dia, então não era uma rebeldia que tinha algum tipo de validade. Era algo que durava dois segundos e passava. A linha de pensamento era: “porque não posso comer? Deixa eu comer o que eu quiser. Ok, é só hoje, por Jesus, está tudo bem”.

O tempo passou, todavia. Não estar mais em uma escola católica, quem sabe, tenha alguma coisa com isso, e ter mudado a minha linha de espiritualidade (não mais seguindo uma religião), fez com que eu visse cada vez mais isso da sexta-feira santa de modo diferente. O importante para mim passou a ser a reflexão, o agradecimento de o que Jesus fez por todos nós. E a consciência limpa de que eu sempre tento fazer o bem ao próximo.

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E foi então que eu caí na “armadilha” de comer carne em uma sexta-feira santa. Um pouco de culpa enquanto as vozes das freiras da escola caíam sobre mim. Porém, eis que descobri, nada de ruim aconteceu. Não escutei as portas do paraíso se fechando e as do inferno se abrindo (quem sabe eu ainda vá descobrir sobre isso). Não perdi a minha paz e não me senti mais propensa para o pecado.

O bacon estava bom, mas como é difícil passar por cima de coisas que nos foram ensinadas desde crianças, né?

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