Crônica

Conversa honesta

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     Eu vim falar sobre alguma coisa, mas esqueci. Imagina que estou com um microfone na mão, a multidão me encara, um holofote de luz queima meus olhos e me impede de ver a cara de decepção das pessoas por eu ter esquecido o que ia falar (mas eu sei que as pessoas estão decepcionadas). Tem um silêncio bem constrangedor no ar, como um lustre antigo em uma igreja esquecida, preste a cair e esmagar todo mundo. O meu rosto está vermelho, tem rodelas de pizza embaixo dos meus braços, o microfone parece dançar em minhas mãos de tanto que tremo.

     Minha boca fica seca e fico gaguejando “desculpe” em todos os idiomas que conheço (desculpe, sorry, mianeyo, scusa, perdón, gomen nasai – na verdade, só falo mesmo dois idiomas, português e inglês e estou engatinhando com coreano, os outros só sei palavras soltas mesmo de italiano, espanhol e japonês – parece que ajuda falar desculpe em muitos idiomas na hora do nervosismo – sei disso porque já coloquei em prática e recomendo – e na maioria dos casos você está mesmo pedindo desculpas a você mesmo, às suas células trabalhando para lhe manter de pé, seu cérebro que está lhe julgando por parecer tão burra, sendo que é um pouco culpa dele que você não lembra de nada).

     Daí eu lembro que tenho pulmões. Esse é um momento importante, eu lembro de algo. Então, respiro fundo e daí lembro que tem um copo de água só para mim. Isso é muito importante, estou lembrando das coisas. Sim, você acertou, eu bebo água um pouco desesperada, derramo por tudo, mas estou bem. Eu falo isso com o microfone perto demais da minha boca “estou bem”. Porém, ainda não lembro o que vim falar. Escuto algumas pessoas se levantando para ir embora e eu não as culpo nem um pouquinho.

     O desespero do esquecimento faz coisas engraçadas. Então, eu decido improvisar. Eu sento na beirada do palco, abro um sorriso, peço para desligarem a luz que já me deixou cega (vou voltar a enxergar normalmente daqui alguns dias, provavelmente). E como esqueci totalmente sobre o que eu ia falar, proponho uma conversa honesta. Vamos só conversar, quem quiser me interromper vem aqui e rouba o microfone, pode ser?

     Vamos só falar da vida, do quanto é complicado querer o melhor, querer fazer a diferença, mas como lidar com a preguiça? Vamos falar de crise; financeira, profissional, pessoal. Vamos falar de guerra, não aquelas que foram, que estão e que irão ser travadas, mas daquelas que acontecem dentro de nós, nossos dilemas maiores que o universo. Eu peço para vocês deixarem todas as armaduras de lado, para falar a verdade, e só a verdade, para contar dos seus medos reais, dos seus sonhos reais, mesmo que tudo pareça bobagem e ridículo, vamos rir juntos. E olha só, foi bem melhor eu ter esquecido o que ia falar, né?

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