Crônica

Uma carta para a minha avó

Vó (2)

Oi vó. Hoje faz exatamente um ano que falei contigo pela última vez. Um ano que tirei essa foto das suas mãozinhas segurando a minha. E fazem seis meses que você descansou.

Hoje não quero falar sobre o dia que tu partiu, pois eu poderia escrever um livro sobre tudo o que senti naquele dia. Um amor enorme por ti, um carinho por todas as lembranças, um respeito pela mulher que fostes. Confesso que até egoísta fui nesse dia, pedindo que voltasse para mim, que lutasse mais um pouco para que pudesse segurar minha mão de novo. Era a minha vez de segurar as suas. Uma última vez.

Última vez apenas fisicamente. Sei que ainda seguramos a mão uma da outra. Quando preciso de forças, sei que estás ali. E quando queres me proteger, sei também que tu vens. Confesso que quero ser egoísta mais uma vez e pensar que tu só vens para mim, mas sei que proteges a família inteira.

Hoje eu quero falar de nós. Dessa foto, que nos resume. O nosso relacionamento era assim. No silêncio. A gente não precisava dizer nada uma para a outra, pois já dizíamos muito só assim. E a gente era muito de pegar uma na mão da outra. É por isso que tenho foto das nossas mãos e não uma selfie.

Eu nunca vou esquecer que um dia fui caminhar contigo e tu reclamou: “Que mão fria, guria” e eu respondi “Ué, a tua também”. Tu riu e disse “tu herdou minhas mãos geladas”. E até hoje, quando alguém diz que minha mão está gelada, abro um sorriso como se a pessoa estivesse dizendo que sou linda. A pessoa me elogia sem saber.

Eu lembro também quando ia te buscar para passar alguns dias com nós, e a gente viajava de mãos dadas (porque o carro era automático). E sempre que eu soltava tua mão, por motivo de estar dirigindo ou outro detalhe, tu ficava com a tua mãozinha estendida, esperando a minha voltar. E a minha mão voltava. E eu lembro que tu gostava tanto que chegava a suspirar.

Nem sempre era silêncio. Tu tinha histórias para contar e sempre fazia questão de ouvir as minhas. E queria saber de todo mundo “como está a tua irmã? E o teu pai? E a tua mãe? E aquela amiga, como é o nome dela mesmo? Aquela de quem tu fala toda hora”. Na maioria das vezes, porém, nós ficávamos quietinhas. E ninguém entendia. O pai falava toda hora “conversa com a tua vó”. Mal sabia ele que nós estávamos conversando.

E hoje posso falar que o nosso relacionamento é muito real. No começo, quando criança, eu não queria ir na sua casa, tinha que ser obrigada. Eu lembro disso e não me arrependo. Porque a gente construiu o nosso relacionamento, não só baseadas em ser neta e avó, a gente soube se conectar do nosso jeitinho. Quem sabe por sermos tão parecidas. Ou melhor, por eu ser parecida contigo. Quando eu publiquei essa foto pela primeira vez a legenda era: “o melhor elogio é quando dizem que você herdou as qualidades da sua heroína”.

Vó, se chorei no seu velório foi por imaginar que não disse algo importante antes de tu partir, mesmo sabendo que eu disse tudo. Chorei pensando se tu terias algo a mais para dizer para mim, mesmo sabendo que dissestes, mais de uma vez, não só no nosso silêncio, mas com palavras, tudo que eu precisava ouvir. Eu herdei tua franqueza, a tua força, a tua rebeldia, a tua coragem e até mesmo a tua teimosia. E se algum dia surgirem dúvidas no meu caminho, basta lembrar que sou forte como você e conseguirei me levantar. Basta lembrar que sou rebelde como você e conseguirei enfrentar. Basta lembrar que sou corajosa como você e conseguirei lutar. E eu sei que ao fraquejar, basta pedir por suas mãos e você virá.

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