Livros da Maria (5)

Essa é a primeira carta que escrevo para você. Sempre quis escrever para você, mas deixava para depois e depois. Achava que minha carta/e-mail/mensagem seria mais uma das inúmeras que você não teria tempo para responder ou até mesmo ler. Sabia que se enviasse, ficaria esperando por dias a fio por uma resposta, um suspiro, um sinal de fumaça que era possível que não chegasse. Teria essa esperança até que um de nós dois morresse. Nunca enviei a carta/e-mail/mensagem e você faleceu.

Agora escrevo a carta igual. Você não a lerá, não a responderá. Não esperarei por resposta. E ainda assim, devo dizer, me sinto melhor enviando agora. Algo que não consigo explicar me diz que essa intenção chegará até você de alguma maneira. Meu amor pelo seu trabalho e pelo profissional que você foi, irá lhe alcançar no afterlife. Porém, lá no fundo, devo confessar, não ter enviado essa carta antes é o meu primeiro grande arrependimento.

Eu já fiz muitas coisas das quais poderia me arrepender, sabe? Deveria, por exemplo, me arrepender de ter tentado me matar quando tive depressão. Eu sobrevivi esse momento dark, então parece que não tem muito do que me arrepender. Não deu certo e eu sou grata. Deveria me arrepender de não ter dito mais vezes à minha avó paterna que a amava, mas ela sabia que eu a amava, então, não preciso me arrepender de não ter dito algo que ela sempre soube. Então, sim, meu primeiro grande arrependimento, não ter lhe enviado um oi.

Seria um oi muito importante. E longo. Porque Terry, eu sei que deve ser complicado entender alguém que nem te conhece e te admira tanto, mas você é super duper importante na minha vida, e eu teria muitas coisas para escrever a você. Lembra que comentei a depressão? Então, as personagens de Discworld me ajudaram muito durante esse período punk da minha vida. Ler os seus livros, o humor contagiante nas histórias que você escreveu deram sentido para a minha vida, pararam as minhas lágrimas, ajudaram-me a carregar a dor, a suportar momentos difíceis, forças para sorrir mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez. E até hoje, ao ler uma história sua, lembro do quanto o riso que suas histórias me proporcionaram foram importantes para minha recuperação e para que até hoje eu esteja tão bem.

Lembra que falei da vó paterna? Foi difícil quando ela partiu. Entretanto, imaginar o seu personagem Morte vindo busca-la para fazer a travessia, fez com que eu sorrisse apesar das lágrimas. Parece bobo, eu sei, mas na minha cabeça, brincar com a ideia de que ela estava sendo auxiliada por ele, acalmou o aperto no meu coração.

Então, Terry, está vendo? O meu agradecimento quase não cabe em uma simples carta. Acredito, todavia, que consegui expressar bastante do que eu sinto por seu trabalho e por você. Sou muito grata por cada livro, cada capítulo, cada parágrafo, cada linha que você escreveu (até mesmo daqueles que ainda não li). E desculpe se essa foi uma carta meio blue, falando de depressão e do falecimento da minha vó, mas é que eu queria que soubesse que seus livros não são apenas histórias. São muito mais. Seus livros me ajudaram e tenho certeza que ajudaram muitas outras pessoas, que se espelharam na coragem das personagens, que enfrentaram medos como Rincewind, que enfrentaram preconceitos como a Esk e lutaram bravamente pelo o que acreditavam como a Vovó Cera do Tempo, a Tiffany e tantas outras personagens.

Muito obrigada por tudo, Terry Pratchett.

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