Ao acordar os aborrecimentos do dia anterior ainda retumbam na minha cabeça. E foi a desculpa para ficar um pouco mais na cama. Até que não pude mais ignorar o despertador. Gosto de ler e responder e-mails enquanto tomo café da manhã, mas ignorei o computador por completo. Ainda estou aborrecida, quero me dar um tempo, essa quarta-feira não vai entrar na lista de “para sempre” (aquela lista de coisas que a gente escolhe lembrar para sempre porque são massa). Assisto Bob Esponja com um cappuccino quentinho em mãos. A mãe até comenta “uma vez caçula, sempre caçula”. Ah, decidi que é meu dia de não ser adulta (não que eu seja adulta nos outros).

O almoço me anima, a mãe tem novidades, o pai está engraçado (é que piadas de pai raramente tem graça, mas hoje elas têm). Se tinha aborrecimentos, decidi deixá-los para trás. Vou para o trabalho com pensamento positivo. Ser otimista não decepciona. A turma está focada (pedem revisão de conteúdo, como que se interessassem pelo estudo, como se quisessem entender todos os mistérios do universo, fazem perguntas que nunca fizeram, me deixam até tonta). E a única pergunta que tenho é: cadê os meus alunos e o que vocês fizeram com eles?

O resto da tarde não fica para trás. Uma quarta-feira cheia de surpresas. A próxima turma está focada também, fazem as atividades com um ânimo que nunca vi antes, querem entender a língua mais que um linguista curioso, e até me dão um pouco de medo. Eu quebro a concentração deles para perguntar: vocês estão bem? Eles franzem o cenho, respondem rindo que sim e perguntam “oh teacher, você está bem?”

No final da tarde, outra surpresa; alguém me pega pelo ombro. E me elogia, me elogia bem demais. Diz que gosta de ler minhas colunas no jornal. E comenta algumas das favoritas, que eu nem lembro mais. Não lembro o que escrevi e pareço uma idiota só agradecendo e sem saber opinar sobre o que eu escrevi algumas semanas atrás. Fico só repetindo “pois é, aham, verdade, concordo, não é mesmo?”

Antes da última turma do dia, decido colocar algumas notas em dia. Notas aqui e notas ali. Todo mundo fica perguntando se tirou 7 no trimestre, poucos perguntam se vão tirar um 10. Coisa estranha dar nota para o desempenho dos alunos, sério mesmo. Não seria mais fácil perguntar que nota eles se dariam? Ou dizer, “gente, vocês são ótimos, será que dava para concordar em estudar um pouco mais?” É tão missão impossível tentar convencer os jovens de que estudar faz bem?!

A minha concentração com as notas acaba logo, os alunos estão chegando para a aula. Um deles pede para que eu ensine a coreografia de Lean On. Eu vou estar velha ensinando o pessoal a dançar o refrão de Lean On. O dia está animado e eu ensino. Faço eles dançarem para mim e filmo. “Teacher, o que tu vai fazer com esse vídeo?” Dou uma risada macabra; “colocar no Facebook caso vocês não estudem”.

A aula, propriamente dita, não acontece. Uma aluna está de aniversário e trouxe lanchinho. Teacher que é teacher, porém, não desperdiça uma oportunidade de ensinar, mesmo que seja besteira. E começamos uma brincadeira de pictionary (alguém desenha algo no quadro e os outros precisam adivinhar). E de repente, todo mundo tem canetão e todo mundo está no quadro ao mesmo tempo. E sim, você acertou, essa paz não dura. Alguém pinta alguém com um canetão e vira guerrinha. Do bem, porque só sabem rir. Eu dou risada junto, afinal, é o dia que decidi não ser adulta. E vira perseguição pelo pátio. Vou atrás e faço um vídeo “um exemplo do que acontece quando uma professora perde o controle da turma”. Ainda bem que já é o final da aula, porque senão as outras professoras iriam ter motivos para me olhar torto.

Volto para a sala e vejo que uma aluna desenhou a turma inteira no quadro e escreveu “a melhor profe e a melhor turma”. Eu seguro o choro e puxo o celular para tirar uma foto. Preciso lembrar disso para sempre. “Teacher, chama alguém para tirar uma foto de todos nós”. E a gente chama, e eles me pegam no colo e a foto fica tão fofa. Eu estava errada, essa quarta-feira definitivamente precisa entrar para a minha lista de “para sempre”.

quarta-para-sempre

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