Crônica

Ontem eu viajei

Voo

   Ontem eu viajei. Ontem eu estava em um aeroporto. Viajei em um avião. Fiz escala. Dois voos para chegar (quase) em casa. E naquela coisa de aeroporto, correria, chá de banco, voo atrasado, malas, mochilas e tal, uma hora me bateu: hoje é 11 de setembro. Poderia ser um dia qualquer. Era mais um dia qualquer. Porém, é uma data. Em 2001, nessa específica data, aconteceram ataques terroristas terríveis.

    Fazem anos agora, mas eu lembro como se fosse hoje. Eu lembro de chegar da escola e meu vô estava com os olhos grudados na tevê. Uma torre era atingida por um avião. “Vô, que filme é esse?”, porque só podia ser filme. Meu vô não tirou os olhos da tevê. A voz que me respondeu não parecia ser a dele: “Não é um filme”.

    É real?! O meu silêncio encarando a televisão fez com que meu vô complementasse: “Está acontecendo, isso é real, um atentado terrorista, é isso que estão falando, essas torres, eles… está acontecendo. Aconteceu”. Deixei minha mochila cair no chão e sentei ao lado dele. Um segundo avião, a outra torre. O noticiário era horrível demais.

     Pessoas estavam dentro daqueles aviões. A família de alguém. Alguém de uma família. Pessoas esperando em aeroportos por pessoas que não iriam chegar. Dois aviões que mudaram suas rotas para encontrar torres, mudando a vida de milhares de pessoas, dentro e fora dos aviões. Pessoas estavam nas torres, nas ruas, nos prédios vizinhos.

  De repente havia a notícia de mais aviões. Mais atentados. Aquilo havia sido orquestrado, planejado. Pessoas pensaram sobre aquilo! Era pior que qualquer filme de terror, era tão horrível. Não era no meu país, mas era algo que mexia com o mundo todo. Um terror desses envolvia todos nós, como pessoas, como seres humanos, e todas as coisas que somos capazes de fazermos uns contra os outros, usando as nossas diferenças para nos afastar, ao invés de tentar nos aproximar e nos respeitar.

     Lembro de rezar naquele dia e em tantos outros. Lembro de me prometer sempre ser grata por viagens, ao chegar no destino e ao retornar ao meu lar. Aproveitar abraços de chegadas e despedidas. Sorrir para as pessoas e absorver o sorriso delas. De agradecer por pessoas que chegavam e me esperavam.

    E ontem, ao viajar nessa data marcada por uma tragédia, rezei mais uma vez. Agradeci pelos responsáveis de tudo dar certo na minha viagem, pelas decolagens bem-sucedidas, pelos pousos seguros, por chegar em casa, por ter gente me esperando, por poder sorrir e abraçar e receber sorrisos e abraços.

Canal Xícara Quente

2 anos de Xícara Quente

     E eu não disse que Setembro seria especial?

     Hoje começa um VIPS (vídeos seguidos por 5 dias) no canal Xícara Quente. Tudo isso para comemorar os dois anos que o canal está no ar! Tem sido uma verdadeira aventura fazer parte da comunidade Booktube e eu só tenho que agradecer todas as amizades e conversas sobre livros que pude desfrutar por esses dois anos (e espero que muitos anos ainda).

     Então, vem comemorar comigo!

Canal Xícara Quente

Canal Xícara Quente – Agosto 2017

     O mês de agosto é conhecido, principalmente, por ser um dos meses que mais demora para passar, seja pelo fim das férias de inverno ou pelas suas longas cinco semanas. Como disse um amigo “o Natal vai chegar antes do fim desse mês”. Porém, falar sobre a passagem do tempo é estranho, já que isso é tão relativo para cada pessoa. Para mim, por exemplo, agosto foi um dos meses mais rápidos desse ano.

     Passou rápido para o canal Xícara Quente também. Vídeos que eu pensei por muito tempo para gravar, de repente já estavam gravados, editados e programados para irem ao ar.

     Vamos lá para um resumo do que aconteceu pelo canal:

     O primeiro vídeo de agosto foi respondendo a TAG: Eu nunca. Coisas como “Eu nunca li algo tão fantástico”, “Eu nunca faria isso”, tudo relacionado à livros, indicações literárias, personagens e autores.

     Depois veio um formato de vídeo muito novo para mim e o qual eu gostaria de aperfeiçoar com o tempo, onde coloquei vários momentos das minhas férias (duas semanas bem intensas e com pessoas que amo). No futuro (não muito distante), eu gostaria de fazer mais vídeos assim, conseguindo incluir mais momentos, pessoas e paisagens. Até porque fica para sempre essa memória legal de vários momentinhos. Só espero que eu lembre de filmar mais (mas que também esqueça de filmar e viva com intensidade).

     Comecei a pensar muito sobre os meus livros favoritos, e ao mesmo tempo perceber que tenho favoritos demais. Será que isso é bom ou ruim? Comecei a refletir, lembrando de conversas que tive com amigas sobre favoritar livros. Decidi sentar e me questionar sobre todos os livros favoritados. Bateu a ideia: e se eu compartilhar essa reflexão? E aí surgiu esse vídeo, que eu gostei bastante e que até tem uma surpresinha no final.

     “Eu nunca vou ler suspense e terror”, eu disse certa vez. Principalmente por medo (dormir com a luz ligada ou pesadelos, essa sou eu). Olhar filmes e ler livros de terror estão riscados da minha vida. Ou estão? Eis então que Guillermo Del Toro (meu diretor de filmes favorito) lança o filme “A colina escarlate”, uma história de fantasmas. A autora Nancy Holder romanceou o filme e eu pensei: está aí uma oportunidade de ler um suspense (já que iria assistir ao filme de qualquer forma). E foi através desse livro de suspense que me encorajei para ler outros do mesmo gênero e expandir minhas leituras (porque a gente precisa se desafiar, né?).

     Para fechar o mês, o último vídeo de agosto foi a TAG: Nananão, que foi muito divertida de responder. Porque apesar de todas as ótimas leituras, às vezes, infelizmente, lemos coisas que só dizendo “nananão”.

     Espero que tenham gostado do resumo de tudo o que rolou no canal durante esse mês. E preparem-se! O mês de setembro é mega especial para o canal e para o blog e tem várias coisas legais vindo por aí, então não se esqueça de se inscrever lá e seguir aqui.

Crônica

Sobre ser criança sem criancice

bubbles

Todos nós fomos crianças. E foi tão bom! Melhor ainda quando entendemos que mesmo crescendo, ainda podemos ser crianças. Podemos brincar, pular, se sujar, comer sorvete, usar roupas coloridas, cabelos coloridos e ir para Beto Carrero/Disney e nos divertir tanto quanto quando éramos pequenos. Um adulto pode usar relógio do Mickey Mouse, camiseta das Meninas Super Poderosas, tênis All Star de qualquer cor, ter ursinhos de pelúcia, colecionar gibis e assistir desenho animado. Quem disse que não, estava muito errado. Cultivar a criança interior é tão importante quanto crescer.

Ainda assim, precisamos crescer. Assumir responsabilidades, assumir nossos erros, nos responsabilizar e nos comprometer com o que fazemos e deixamos de fazer. Ainda precisamos entender o lado dos outros, deixar os choros para o conforto e privacidade de nossos quartos, erguer o queixo durante as quedas e seguir em frente. Crescer e amadurecer não é fácil. A gente pensa que sim, mas não é nem um pouco. Esse processo não nos exige que deixamos Bob Esponja de lado, porém, as criancices precisam morrer.

Deixe a sua criancice com a sua falta de responsabilidade lá no passado. Não a carregue para o futuro, não vai lhe fazer nenhum bem. Deixe as suas desculpas baratas também. Deixe os seus pequenos acessos de raiva e de choro em um cemitério de comportamentos que você não mais faz. E por favor, não traga para o futuro essa mania de achar que é o centro do universo. O seu umbigo não é o mais importante. Faça questão de deixar essa sua insistência de que as pessoas dediquem tempo integral a você. De novo, para que ninguém esqueça: Deixe.Sua.Criancice.No.Passado.

Filme

Como não adaptar Death Note

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Atenção: Spoilers do filme “Death Note”da Netflix

Muito da minha adolescência foi na frente da televisão assistindo Locomotion (quem lembra desse canal?), que passava animes o dia inteiro. E lá eu conheci Death Note. Eu ainda lembro de fazer altas reflexões com as situações apresentadas. E em tardes escuras e chuvosas da minha-angustiante-vida-de-adolescente-cheia-de-drama, eu fiz listas de nomes que eu colocaria em um Death Note (quem assistiu o anime provavelmente pensou sobre isso pelo menos uma vez).

Então, a Netflix aparece com um filme. Que fique claro, antes de tudo, que sou uma grande fã da plataforma de streaming. Acredito que entregam um bom serviço e produzem ótimo conteúdo, filmes e séries originais de muito bom gosto (dois exemplos recentes: Okja e O mínimo para viver). Entretanto, não se vive em um mar de rosas, né? Eu não gostei do fato de que tiraram o anime de seu país de origem (Hollywood e sua necessidade de americanizar tudo). Além de toda a questão do whitewashing (quando um personagem étnico é interpretado por um ator branco), eu queria ver como eles iriam explicar shinigami (deus da morte) fora da cultura japonesa (no caso, eles não explicam).

Como fã do anime, eu fiquei decepcionada com o resultado do filme, e aqui estão quatro considerações (porque se eu fosse enumerar tudo que me incomodou, seria demais):

– A cena em que Light conhece Ryuk deveria ser tensa, tinha tudo para ser, pelo menos, a única cena boa do filme, porém, a atuação do Nat Wolff não convence (e na verdade, me fez rir alto). Inclusive, não é só uma questão de atuação, o roteiro pecou com o personagem principal, que não lembra nem um pouco o do anime.

–  Ryuk: é um dos melhores personagens ever! No anime, é claro. No filme não é o mesmo personagem (eu me recuso). Foi retratado como um monstro, um pesadelo, alguém sedento por sangue, porém, no anime, se me lembro bem, ele sempre foi neutro, sem se meter nas escolhas do Light. E eles desenvolvem um tipo de relacionamento (não necessariamente uma amizade, mas era interessante ver a maneira como eles interagiam). No filme, eles mal conversam. E Ruyk aparece tão pouco que chega a dar uma dor no coração.

– Preferia nem comentar o L, que perdeu toda a sua essência no filme. Ele apenas parece ser um detetive excêntrico, um jovem inteligente demais para a idade e não é isso que ele é no anime, afinal, não é a sua excentricidade, sua maneira estranha de sentar e seu gosto por doces que o faz quem ele é.

– Cadê os diálogos inteligentes? Cadê a reflexão sobre o que é certo e o que é errado? Sobre os perigos de brincar de “deus”? Sobre o poder subindo a cabeça? Sobre a lei do “olho por olho” não ser a resposta?

Algo se salva? Sim, Ruyk (mesmo que seja esse que não lembra o personagem) com a voz e risada de Willem Dafoe. Só.

Crônica · Livros

#BookLoversDay

Livro

Qualquer lugar com livros se torna mais aconchegante. Ao entrar em casas de estranhos, procure por livros. Se a pessoa lê, ela já recebe votos de confiança automaticamente. Ler as lombadas dos livros nas estantes alheias faz parte de um hobby interessante. Encontrar velhos amigos já lidos, que nunca leu, que nunca vai ler, e já monta um perfil da pessoa pelas leituras que ela fez ou não (porque às vezes livros são só decoração, né? E tudo bem).

Livros carregam tantas informações e histórias. Em outros tempos eles eram queimados. Hoje em dia são banidos. E teve tempos que mulheres não podiam ler, pois livros davam ideias. Sim, eles dão muitas ideias, inspiram novas histórias, mas também carregam em suas palavras um aconchego, um ombro amigo, um conselho, um incentivo, uma motivação. O objeto faz muito parte de toda o amor envolvido. Não é só a leitura que agrega. Abrir o livro, cheirar as folhas, folhear, enamorar com eles em estantes de livrarias faz parte de um processo afetivo ainda para ser estudado.

E o pavor ao encontrar uma orelha de burro? Uma página se soltando? Ou até mesmo, o olhar de orgulho ao pegar um livro velho todo manuseado, cheio de orelhas de burro, amarelado e manchado pelo tempo, a capa se soltando, rabiscos e linhas sublinhadas e pensar em todas as leituras e releituras que ele enfrentou. Quantas vezes foi socado dentro de mochilas, de bolsas, ou se foi perdido, esquecido na chuva, abandonado na estante? Quantas histórias, além daquela que ele carrega, esse livro tem para contar? Quantos momentos ele presenciou das estantes do mundo? Quantos silêncios partilhou nas bibliotecas por aí? Quanto tempo esperou em um sebo? Quantas lágrimas absorveu? Quantas risadas escutou? Quantas vezes foi companheiro de fila, de viagem, de espera?

Livros podem nos contar tantas histórias, basta abrir e começar a ler. Um passaporte que nos leva para onde a gente quiser, abraça a imaginação e consegue fazer parte das nossas vidas mais do que conseguimos explicar.

Se livros ainda não te encantam, eu lhe convido para deixar eles te encantar.

Crônica

Uma carta para a minha avó

Vó (2)

Oi vó. Hoje faz exatamente um ano que falei contigo pela última vez. Um ano que tirei essa foto das suas mãozinhas segurando a minha. E fazem seis meses que você descansou.

Hoje não quero falar sobre o dia que tu partiu, pois eu poderia escrever um livro sobre tudo o que senti naquele dia. Um amor enorme por ti, um carinho por todas as lembranças, um respeito pela mulher que fostes. Confesso que até egoísta fui nesse dia, pedindo que voltasse para mim, que lutasse mais um pouco para que pudesse segurar minha mão de novo. Era a minha vez de segurar as suas. Uma última vez.

Última vez apenas fisicamente. Sei que ainda seguramos a mão uma da outra. Quando preciso de forças, sei que estás ali. E quando queres me proteger, sei também que tu vens. Confesso que quero ser egoísta mais uma vez e pensar que tu só vens para mim, mas sei que proteges a família inteira.

Hoje eu quero falar de nós. Dessa foto, que nos resume. O nosso relacionamento era assim. No silêncio. A gente não precisava dizer nada uma para a outra, pois já dizíamos muito só assim. E a gente era muito de pegar uma na mão da outra. É por isso que tenho foto das nossas mãos e não uma selfie.

Eu nunca vou esquecer que um dia fui caminhar contigo e tu reclamou: “Que mão fria, guria” e eu respondi “Ué, a tua também”. Tu riu e disse “tu herdou minhas mãos geladas”. E até hoje, quando alguém diz que minha mão está gelada, abro um sorriso como se a pessoa estivesse dizendo que sou linda. A pessoa me elogia sem saber.

Eu lembro também quando ia te buscar para passar alguns dias com nós, e a gente viajava de mãos dadas (porque o carro era automático). E sempre que eu soltava tua mão, por motivo de estar dirigindo ou outro detalhe, tu ficava com a tua mãozinha estendida, esperando a minha voltar. E a minha mão voltava. E eu lembro que tu gostava tanto que chegava a suspirar.

Nem sempre era silêncio. Tu tinha histórias para contar e sempre fazia questão de ouvir as minhas. E queria saber de todo mundo “como está a tua irmã? E o teu pai? E a tua mãe? E aquela amiga, como é o nome dela mesmo? Aquela de quem tu fala toda hora”. Na maioria das vezes, porém, nós ficávamos quietinhas. E ninguém entendia. O pai falava toda hora “conversa com a tua vó”. Mal sabia ele que nós estávamos conversando.

E hoje posso falar que o nosso relacionamento é muito real. No começo, quando criança, eu não queria ir na sua casa, tinha que ser obrigada. Eu lembro disso e não me arrependo. Porque a gente construiu o nosso relacionamento, não só baseadas em ser neta e avó, a gente soube se conectar do nosso jeitinho. Quem sabe por sermos tão parecidas. Ou melhor, por eu ser parecida contigo. Quando eu publiquei essa foto pela primeira vez a legenda era: “o melhor elogio é quando dizem que você herdou as qualidades da sua heroína”.

Vó, se chorei no seu velório foi por imaginar que não disse algo importante antes de tu partir, mesmo sabendo que eu disse tudo. Chorei pensando se tu terias algo a mais para dizer para mim, mesmo sabendo que dissestes, mais de uma vez, não só no nosso silêncio, mas com palavras, tudo que eu precisava ouvir. Eu herdei tua franqueza, a tua força, a tua rebeldia, a tua coragem e até mesmo a tua teimosia. E se algum dia surgirem dúvidas no meu caminho, basta lembrar que sou forte como você e conseguirei me levantar. Basta lembrar que sou rebelde como você e conseguirei enfrentar. Basta lembrar que sou corajosa como você e conseguirei lutar. E eu sei que ao fraquejar, basta pedir por suas mãos e você virá.